Quanto vale uma mentira?

Em meados deste mês de junho os EUA e porque não o mundo inteiro esteve bastante atento a um testemunho ocorrido no Comitê de Inteligência do Senado norte-americano. Estamos falando do depoimento de James Comey, ex-diretor do FBI demitido de forma dúbia pelo atual presidente Donald Trump.

Em um dos momentos mais tensos do relato de Comey, o mesmo afirmou que o presidente mentiu ao afirmar que o FBI estava sob desordem quando o demitiu.

Uma mentira, ou até mesmo a acusação de alguém como mentiroso pode custar muito caro, neste caso, o preço de uma mentira pode ser a presidência de umas das nações mais importantes do planeta.

Trazendo o tema para um espectro mais micro e correlacionado com o assunto principal do nosso blog, o planejamento financeiro, gostaria de trazer à discussão um artigo que li recentemente sobre como seu planejador financeiro pode estar mentindo para você. Nesse caso, algumas pequenas mentiras podem lhe custar seus sonhos como a independência financeira, a casa própria, a viagem dos sonhos, etc.

Antes de comentar sobre o artigo propriamente dito, gostaria de reforçar algumas observações que servem como uma forma de disclaimer às opiniões apresentadas neste texto, já que se trata de um tema polêmico, até um pouco indigesto eu diria:

1) meu objetivo de forma alguma é difamar ou diminuir a profissão de planejador financeiro, ou qualquer outra do mercado financeiro, afinal de contas, trabalho diariamente com dezenas deles, e o planejamento financeiro para pessoas físicas é o que paga minhas contas no fim do mês. Se você ler este artigo e entender ele como um ataque a idoneidade da profissão, você entendeu errado;

2) as críticas apresentadas não foram inspiradas no comportamento de um profissional ou categoria de profissionais específicos. Trata-se de uma olhar geral sobre algumas práticas ruins da profissão que  podem prejudicar quem mais precisa de ajuda, o cliente;

3) toda e qualquer profissão está suscetível a falhas de caráter de seus profissionais, abstraia os pontos aqui levantados e mais importante, não generalize, pois você pode estar prejudicando profissionais sérios, capacitados, competentes que nada tem a ver com as práticas ruins de alguns de seus colegas.

Feitas tais considerações, espero que aproveite a leitura.

A verdade, a falta dela, a omissão, e até mesmo aquilo que é classificado como mentira são temas muito tênues no mundo do planejamento financeiro.

Se você é um investidor individual que já foi assessorado durante muito tempo por planejadores financeiros, assessores de investimentos ou gerentes de banco, já deve ter percebido a fragilidade de alguns assuntos. Um exemplo claro disso, é quando se descobre que você esteve durante anos investindo no produto financeiro mais caro do seu banco, por uma questão de conflito de interesses resultante das metas do gerente de seu banco.

Onde esteve a verdade, a omissão e até mesmo a mentira neste caso? Difícil dizer com precisão não é mesmo?

Para se ter uma ideia, uma pesquisa recente no mercado americano sugere que 60% dos investidores sentem que seus planejadores colocam os interesses das empresas que representam antes dos interesses dos próprios clientes, 12%, somente, pensam ao contrário. Piorando o cenário, 63% dos clientes acreditam que as leis financeiras vigentes não protegem o investidor contra empresas e consultores que queiram tirar vantagens deles. Em minha opinião, estes são dados extremamente alarmantes!

Algumas práticas da indústria de planejamento financeiro podem esclarecer realmente o motivo destes dados negativos, tentaremos resumi-los abaixo:

Livre de taxas!

Quando o seu gerente, agente autônomo ou planejador financeiro disser que não há taxas envolvidas, fique bastante atento! Por mais que possa parecer, e você desejar: “não existe almoço grátis”. Entenda, essas pessoas são prestadoras de serviço e não estão trabalhando de graça. Algumas empresas constroem estratégias para parecer que o produto final comprado por você está livre de taxas.

O que muito provavelmente ocorre na realidade é a cobrança de taxas implícitas, muitas vezes embutidas no preço final do produto, na forma de spread bancário.

Dica: para ter certeza do real valor dos produtos e serviços que você está comprando, leia atentamente aos contratos e termos de adesão, lá muito provavelmente encontram-se as taxas cobradas, que até pouco tempo você poderia achar que não existiam.

Acredite em mim, eu sou certificado.

Títulos e certificações são sim validações extremamente importantes, ainda mais nesta era de excesso de informação a qual estamos inseridos. Existem muitas opções e a complexidade da indústria de planejamento financeiro só aumenta.

Existe uma vasta gama de certificações e títulos disponíveis aos profissionais de planejamento financeiro, porém, alguns planejadores podem se aproveitar da confusão de siglas e tirar vantagens da falta de conhecimento de seus clientes.

Dica: tome cuidado, caso alguém se apresente a você como consultor, planejador ou gestor. Existem processos específicos para exercer cada um desses cargos de maneira formal, e consequentemente, atribuições específicas a cada uma das funções, tenha muito cuidado para não se confundir na sopa de letrinhas das certificações.

Já deu uma olhada nestes retornos?

A venda de um produto financeiro, exclusivamente baseada no desempenho histórico do mesmo, talvez seja um dos maiores males da indústria. O pior de tudo é que chegamos ao ponto que tal prática tem sido incentivada e cultivada pelos próprios clientes, por terem sido assessorados por outros profissionais no passado que eram viciados neste artifício. No fim das contas, torna-se um ciclo vicioso que prejudica até mesmo o trabalho de planejadores bem intencionados que não usam rentabilidade como fator exclusivo para indicação de produtos.

Dica: parece até meio óbvio, mas nunca é o bastante repetir: “rentabilidades passadas, não indicam necessariamente retornos futuros”. Essa seja talvez a máxima mais antiga em investimentos, que acredito, sempre será atual. Desconfie de retornos passados extraordinários, eles podem esconder grandes riscos atrelados ao ativo. Leve em consideração outras informações, não apenas o gráfico de uma linha que não para de subir.

Esquecemo-nos de mencionar isto?

Dentro da mesma perspectiva da linha tênue entre verdades e mentiras, está o campo obscuro e confuso da omissão. Omissão é uma prática comum entre profissionais do mercado que agem de má fé.

Quantas vezes taxas e comissões estão escondidas em regulamentos e prospectos difíceis de ler? Nesse processo, você pode acabar não se sentindo capaz de entender os verdadeiros custos dos seus investimentos. Do outro lado, podem existir profissionais que se aproveitam da falta de transparência e omitem informações sobre custos dos clientes caso não se toque no assunto.

Dica: seja o cliente chato, aquele cliente criterioso, pergunte sempre quanto irá custar, quais são as taxas implícitas, os impostos, etc. Acredito que somente demonstrando esse interesse você conseguirá coibir a cultura da omissão e não se sentir enganado futuramente.

Este investimento não tem risco.

Não existe investimento sem risco, até aquele considerado o mais conservador dos investimentos: o Tesouro Selic, guarda consigo determinados riscos específicos. O que difere um investimento mais arriscado de outro menos arriscado é a probabilidade de ocorrência de algum tipo revés, desde o risco inflacionário passando pelo risco de crédito.

Dica: entenda que não existe o termo “livre de risco”, apenas o termo “baixo risco”. Caso alguém lhe apresente algum investimento que é 100% livre de risco, probabilisticamente falando, trata-se de uma mentira, cuidado!

É agora ou nunca.

Profissionais mal intencionados adoram a tática do medo. Frases do tipo: “se você não agir agora, o cenário vai mudar e você não terá sucesso”, “se perder essa chance, seus filhos não pagarão a faculdade” são típicos artifícios de quem utiliza esta tática.

Dica: planejamento financeiro não é uma novela ou um reality show. Leva tempo para se alcançar os objetivos, e isso exigirá paciência de você. Profissionais ruins empurram decisões rápidas aos seus clientes por puro medo de perder uma venda, não porque o mercado vai realmente mudar do dia para a noite. Se seu assessor, gerente ou planejador utiliza a tática do medo com você, muito provavelmente você está com o profissional errado.

Considerações finais

Procure planejadores financeiros que sejam honestos com você desde o início. Bons planejadores financeiros, aqueles considerados confiáveis, são aqueles que falam abertamente sobre custos dos investimentos, riscos, rentabilidades, etc. Busque profissionais que não vendam um atalho ou fórmula mágica do enriquecimento.

Procure por indicações deste profissional, leia sobre a empresa a qual ele trabalha, caso esteja associado a uma empresa, verifique se há processos legais contra ele ou contra a empresa na justiça, entenda onde existe conflito de interesses, e não tenha medo de perguntar. É a sua vida, o seu futuro que está sendo planejado ali.

Quer saber mais como escolher o seu Planejador Financeiro?

Acesse o artigo “5 Passos para escolher o seu Planejador financeiro” aqui.

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