E aí? Bateu o CDI?

Estava um dia desses almoçando sozinho em um restaurante aqui perto do escritório. Entediado, não pude deixar de ouvir a conversa de terceiros. É feio, eu sei. Atire a primeira pedra quem nunca fez isso…

Dentre as diversas conversas, duas me chamaram a atenção: numa mesa, um senhor de meia idade, visivelmente acima do peso, discursava catedraticamente sobre como de nada valia iniciar uma dieta caso não se cortasse o glúten e a lactose de sua vida; em outra, um jovem executivo tentava convencer um senhor com cara de poucos amigos e muito dinheiro que ele deveria saber qual a rentabilidade exata de sua carteira de investimentos, caso contrário, estaria perdendo dinheiro.

E por que estas duas conversas me chamaram a atenção? Qual a relação entre elas?

Para mim, ambas as conversas mostram a necessidade que as pessoas têm em se preocuparem exclusivamente com a forma e não com o conteúdo, de buscarem primeiro o ótimo, no entanto,  sem passarem antes pelo bom. Nas duas conversas, os interlocutores podem ter alguma razão, porém, o que eles pregam e dão tanta importância são meios e não fins.

Não sou nutricionista, então, não vou entrar nos méritos do discurso da primeira mesa. Essa discussão não tem fim e toda semana sai um estudo científico novo confirmando ou negando algum dos lados.

Já sobre o tema da segunda mesa, me sinto mais confortável em meter o bedelho. Mesmo sabendo que também não há uma resposta certa para a segunda discussão.

Vamos lá, meu ponto é justamente o seguinte: o investidor comum não deve perder seu sono caso não esteja batendo o CDI ou qualquer que seja o benchmark que lhe foi proposto. Não estou dizendo que produtos caros e que perdem constantemente para o CDI são bons, longe disso. O que digo é que você não deve se preocupar diariamente, que seja mensalmente, em comparar sua carteira com algum tipo denominador comum.

Por que não devo comparar?

O culto aos benchmarks tem evidenciado diversas irracionalidades e vieses dos investidores. Quando um investidor compara constantemente seu portfólio com algum índice, ele assume que aquele índice padronizado é a melhor média existente no mercado e, mais do que isso, que esta média é a mais adequada para seus objetivos financeiros.

Quando está abaixo desta média o investidor se sente obrigado a ultrapassá-la e, para isso, acaba incorrendo em riscos acima daqueles aos quais estaria disposto ou precisaria correr para atingir seus objetivos, caso esse balizador não existisse.

“as pessoas sentem muito mais a dor de uma perda do que a felicidade de um ganho de mesma grandeza”

A Teoria do Prospecto, de Kahneman e Tversky, (disponível aqui ) já nos disse que as pessoas sentem muito mais a dor de uma perda do que a felicidade de um ganho de mesma grandeza. Sendo assim, os investidores que vivem de olho em benchmarks e entendem que só estão ganhando quando batem este indicador, eles não percebem, mas com essa atitude aumenta consideravelmente sua chance de terem uma péssima experiência com seus investimentos.

Outro exemplo interessante, próximo da realidade de muitos de nossos leitores, imagine um investidor que passou sua vida inteira comprando imóveis e hoje a renda destes imóveis alugados é mais que suficiente para bancar sua aposentadoria. Este investidor nunca comparou a evolução de seu patrimônio contra nenhum índice, já que tais índices praticamente não existem para o mercado imobiliário e, quando existem, são pouco difundidos e sua medição é sempre cercada de controvérsias.

Este investidor fez um mau negócio investindo sempre em imóveis?
Acredito que não, pois está vivendo uma aposentadoria tranquila.

Ele poderia ter ganhado mais dinheiro?
Talvez sim, mas isso é realmente importante dado que ele atingiu seu objetivo?

Quanto de estresse adicional ele teria caso comparasse mês a mês o valor de seus imóveis com algum índice financeiro?
Provavelmente muito, a ponto até de fazê-lo desistir de sua estratégia, que se mostrou satisfatória no fim das contas.

E por que eu digo que aumentam consideravelmente as chances de uma má experiência com investimentos?

O relatório anual sobre o mercado americano divulgado pela S&P, disponível aqui , mostrou que em 2016, em uma janela de um ano, cerca de 66% dos gestores profissionais ficaram abaixo do índice S&P500; numa janela de cinco anos, 88% dos gestores profissionais ficaram abaixo deste indicador e, numa janela de quinze anos, 92% não conseguiram superar o índice.

Se estes são números de gestores profissionais, imagine quais os números de investidores pessoas físicas, que são mais inexperientes no assunto.

Esta busca “bater o mercado” faz com que as pessoas quebrem as duas regras de ouro, daquele que é talvez o investidor mais o investidor mais famoso do mundo, o norte-americano Warren Buffet:

  • Nº1 – Não perca dinheiro;
  • Nº 2 – Volte à regra anterior.

Até do ponto de vista matemático, considerado mais rigoroso, já sabemos há séculos que a busca constante por ganhos adicionais não é racional. O matemático suíço Daniel Bernoulli (1700-1782) demonstrou que a utilidade prática de cada ganho em seu portfólio é inversamente proporcional ao tamanho de seu portfólio. Ou seja, quanto mais dinheiro você acumula, mais importante é você defendê-lo da inflação e de perdas do que ter ganhos exorbitantes correndo riscos maiores ainda.

Dito tudo isso, o que fazer afinal?

Proponho que os investidores tenham apenas dois benchmarks: a inflação e seus objetivos. Simples assim!

Você não precisa bater o mercado, você precisa gerar um retorno compatível com seus objetivos, algo como corrigir seu capital pela inflação e não se expor excessivamente à volatilidade negativa. Se esse retorno excede ou não algum indicador de mercado, na realidade, não é muito importante. Se o retorno está de acordo com seus objetivos, então, ele é o seu benchmark pessoal. Logo, é mais importante você gerar um retorno apropriado do que o maior retorno possível correndo riscos incalculáveis.

Se quiser ter uma ferramenta que te auxilie a calcular seu benchmark pessoal, sugiro que use nossa calculadora de rolling forecast para objetivos. Com ela, você poderá colocar seus objetivos e atualizar suas premissas conforme elas mudem. Desta forma, você saberá sempre onde estará em relação ao que é importante para você e não se está bem ou mal em relação a um índice arbitrário ou um índice da moda.

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